24 maio 2019

Limolaigo Toype: Em defesa da vida, eu sou Xicão! XIX Assembleia Xukuru


 


(De andada, com os pés na terra e a cabeça conectada ao universo, nós, que integramos a Ação Comunitária Caranguejo Uçá, pegamos a estrada e fomos nos religar com a ancestralidade na Aldeia Pedra d'Água Território do Povo Indígena Xukuru do Ororubá. A experiência nos mostrou que não há luta sem conexão espiritual e que é a partir da coletividade e da gentileza que devemos seguir nossa missão.) 

Qual vida é defendida pelo povo Xukuru? O que significa ser Xicão? O que tem de especial essa assembleia anual que cada vez mais, atrai mais pessoas?

As questões acima, não possuem respostas objetivas ou exatas. São reflexões, aprendizagens e sentimentos experienciados à partir da vivência de quem imerge na cultura do povo Xukuru do Ororubá. Ao longo dos quatro dias (17 a 20 de Maio), pode-se constatar que a Assembleia Xukuru é uma forma de ação organizacional social e política entrelaçada com a espiritualidade.

As mesas de discussão, sediadas no espaço sagrado Mandaru (nome do Cacique Xicão Xukuru, assassinado em 1998, agora encantado), são precedidas por rituais de pajelança e ao final das atividades diárias, finalizadas por torés, ao som de cantos que reverenciam as forças dos ancestrais, dos encantados e da Jurema sagrada. Para o povo Xukuru, todas as feições presentes no território (as matas, a pedra, o solo), assim como o sol e a chuva são elementos considerados sagrados. Talvez, esse seja um fator crucial na relação entre os povos indígenas e o ambiente que os cerca, no qual eles também são partes integrantes. Não há "meio" ambiente, porque ele não se divide entre natureza e ser humano. Na assembléia Xukuru, parece não haver espaço para as divisões, mas sim para os compartilhamentos, de saberes, de experiências e de cordialidades. A atenção, o cuidado e a gentileza estão presentes nesse povo que afirma em alto e bom tom: "Nós apresentamos nesta assembleia um projeto de nação".

           
Em vários momentos, o discurso do Cacique Marcos Xukuru (filho de Xicão) versa sobre o respeito a pluralidade e a diversidade étnica e cultural, característica marcante da população brasileira. Essa diversidade esteve representada pelos povos indígenas, articulados em várias frentes regionais e nacionais, seja através das suas lideranças, dos profissionais da saúde e educação, da juventude, assim como pela mídia e comunicação, além de diversos representantes de movimentos sociais e de organizações que apoiam as causas da luta indígena. Dentre essas lutas, o desmonte da política indigenista, a situação das reformas trabalhista e previdenciária, a voz das mulheres Xukuru, a socialização do Acampamento Terra Livre (que já tornou-se um evento internacional), assim como, a vitória do povo Xukuru na Corte Interamericana de Direitos Humanos e a condenação do Estado Brasileiro, foram alguns dos temas debatidos na plenária.


O cacique Marcos nos conta como surgiu o evento: “A assembleia é algo que foi pensando pelo povo Xukuru depois da morte do Cacique Xicão, meu pai. Na perspectiva de reaglutinar o povo Xukuru que estava disperso mediante o brutal assassinato dele. Conseguimos fazer um encontro ampliado com todas as famílias das 24 aldeias, na auto afirmação da nossa identidade, na luta pela terra, pela educação e saúde. E à partir dali começa a irradiar para outras pessoas que transcende a fronteira do território Xukuru”.

Com relação ao que se tornou a assembleia, Marcos afirma: “Hoje, esse evento não é mais só assembleia do povo Xukuru, a gente recebe povos de todas as regiões do país que se comungam nesse processo. Os temas são: análise de conjuntura; políticas públicas e como elas podem ser trabalhadas internamente; discussão sobre as ações do governo que vem causando danos às populações indígenas e a população em geral. (...) A Assembleia Xukuru se torna hoje, esse ambiente (espaço Mandaru), um espaço de todos os povos e de todos aqueles que se congregam à luta em defesa da vida. Se amplia esse processo e temos aqui, como um espaço revolucionário de construção de um país pluriétnico, pluricultural e que respeita a diversidade e que consigamos reunir esse povo para que possamos fazer o enfrentamento à partir dessas reflexões feitas por todos nós”, enfatiza o cacique.



Cacique Marcos Xucuru (no centro à esquerda) entre outras lideranças indígenas.
Para os povos indígenas, a estratégia de combater o movimento indígena, é em vão, uma vez que essa luta é guiada pelo espírito, como afirma o Cacique Kretan (Povo Kaigang): “Quantas vezes nós falamos o nome do Cacique Xicão Xukuru aqui? (...) Por quê que o governo não consegue uma estratégia pra enfrentar nós, os povos indígenas? Hoje, nós estamos num governo estrategista, mas eles não sabem como nos enfrentar. Porque ninguém enfrenta o espírito, enfrenta o guerreiro. Eles foram treinados para ser frio e o espírito não é frio, é quente. (...) Ninguém pede pra entrar no movimento indígena nacional, porque o movimento indígena é um grande espírito e ele vai buscando seus aliados e vai trazendo pra dentro do movimento indígena. Esse grande espírito que nós citamos por várias vezes aqui dentro.”


Cacique Kretan Kaigang (APIB - Articulação dos Povos Indígenas do Brasil)

O Movimento Indígena está se articulando em vários estados para realizar em Agosto, a 1ª Marcha de Mulheres Indígenas do Brasil. De acordo com Elisa Pankararu, as pautas da marcha são: “As reivindicações pelo direito aos nosso territórios sagrados, aos nossos territórios de bem viver, por uma educação que valorize e fortaleça a identidade dos nossos povos,  para que fortaleça o Sistema Único de Saúde para todo o Brasil e um sistema de saúde próprio pra cada povo, porque também temos nossos sistema de saúde em nossas aldeias.”

Elisa Pankararu (APOINME - Articulação de  Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, MG e ES)
A Assembleia teve encerramento com a missa em memória ao Cacique Xicão e outras lideranças Xukuru, realizada nas matas sagradas (onde estão plantados), posteriormente, a caminhada que tem início no limite do Território Xukuru, desce a serra do Ororubá e segue pelo centro da cidade de Pesqueira até o local onde o cacique foi assassinado.



Cacique Marcos Xukuru anunciando a caminhada. 

(Fortalecidos com essa troca de saberes ancestrais e compreendendo a força e importância da conexão espiritual nas lutas por direitos, seguimos firmes, juntos lutando contra a violação aos povos e comunidades tradicionais.)

“E diga ao povo que avance.
Avançaremos!”



Créditos das imagens: Israel (Uçá) Gabriel e Rodrigo Lima.

22 março 2019

Transformar Coletivamente os Espaços Comunitários



Quem pode mudar a paisagem do seu bairro ou de sua comunidade? Acreditamos que qualquer pessoa pode e deve ser agente transformador da sociedade. Diante disso, temos buscado construir coletivamente com jovens da Ilha de Deus, uma metodologia participativa de ação transformadora. Esse processo evidencia o protagonismo em potencial da juventude, onde inicia-se com um levantamento de espaços comunitários de uso comum, que encontravam-se ociosos, a eleição de qual espaço é prioritário e que tipo de intervenção deveria ser feita. No último sábado (16/03), os canteiros localizados na entrada da Ilha de Deus (rotatória), que encontravam-se com pouco ou quase nenhum uso deram espaço ao mutirão de plantio de flores e plantas ornamentais.


A Ação Comunitária Caranguejo Uçá acredita que o acesso a informação, a arte, as tecnologias e aos conhecimentos ancestrais são alicerces para uma formação cidadã e emancipatória, que valoriza sua identidade cultural e desperta os potenciais individuais e coletivos. Por isso, as atividades sempre vão trazer diferentes linguagens artísticas e da comunicação. Atividades em forma de mutirão são importantes por envolver a comunidade em prol de uma causa, a transformação de um espaço ocioso em área verde. Na ocasião, contamos com a colaboração de Brau que usou a parede da Estação Elevatória de Esgoto (que não funciona), como painel para sua arte.



À partir de ações como essa, esperamos que moradores e moradoras se sensibilizem e colaborem com o processo de cuidado e manutenção desse espaço, que é comunitário, e que novas ações envolvam cada vez mais, outros atores sociais.

Caranguejo Uçá é Arte & Solidariedade!

01 outubro 2018

Clima e Territórios (Cine-Debates nas Comunidades Tradicionais Pesqueiras)

Associação de Pescadores da Ponte do Limoeiro

Durante os meses de Agosto e Setembro, o núcleo de comunicação Caranguejo Uçá  realizou sessões de Cine-Debate nas Comunidades Tradicionais Pesqueiras de Brasília Teimosa, Caranguejo Tabaiares, Ilha do Maruim, Ponte do Limoeiro, Vila São Miguel e Vila Tamandaré, exibindo o vídeo: "Encontro de Pescadores e Pescadoras do Recife".

O Cine-Debate teve como objetivo refletir sobre a situação da pesca artesanal e como se encontram os territórios pesqueiros que compõem a cidade do Recife. Durante as sessões, em todas as comunidades, foi constatado que a ausência de políticas públicas contextualizadas, o uso e ocupação desordenada do solo, a inexistência ou deficiência do sistema de esgotamento sanitário e a falta de fiscalização ambiental, degradam os territórios, descaracterizam as comunidades e comprometem a reprodução do modo de vida tradicional.

Dentre as diversas questões levantadas nas comunidades, a poluição das águas e a saúde da mulher pescadora se mostrou como algo alarmante, uma vez que, durante o ato da mariscagem, as pescadoras passam horas no ambiente aquático expostas à poluentes, aumentando o risco de contrair fungos ou bactérias e sujeitas à contrair doenças que comprometem o sistema reprodutor. Em alguns casos, quando buscam o atendimento de saúde, essas situações podem ser tratadas como Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST's) ou Doenças de Pele, mas não são reconhecidas como Doenças Ocupacionais, ou seja, doenças adquiridas durante o trabalho de pesca, em condições adversas. 

                         Pescadoras da Comunidade Brasília Teimosa (Colônia de Pescadores Z-1 do Pina)

Nas comunidades em que existe uma estrutura de organização da categoria (ex: Colônia de Pescadores, Associação de Pescadores), as sessões tiveram uma maior adesão, como na Brasília Teimosa e na Ilha do Maruim, isso nos mostra a importância de buscar união entre pescadores e pescadoras para lutar pela garantia dos direitos. Apesar do governo de Pernambuco ter criado a Política da Pesca Artesanal (Lei 15.590/2015 regulamentada pelo Decreto 45.396/2017), a situação das águas na Região Metropolitana do Recife é de descaso público, comprometendo as condições de saúde de toda a sociedade.

A descaracterização das comunidades tradicionais pesqueiras é resultante da condição de invisibilidade, que exclui, estigmatiza, criminaliza e mata qualquer possibilidade de cidadania, a exemplo do Plano Diretor da cidade do Recife, que não considera entre as metas de planejamento e ordenamento territorial a garantia de direitos desses cidadãos e cidadãs e a regularização dos territórios tradicionais pesqueiros. Em contraposição, mediante as adversidades resultantes dessas condições indignas, o potencial artístico, criativo, profissional, ancestral,  garante a manutenção da qualidade alimentar de toda a sociedade, ou seja a soberania alimentar,  além de garantir com suas práticas a conservação das espécies que são importantes recursos pesqueiros. 


Comunidade Caranguejo Tabaiares

Comunidade Vila Tamandaré


Comunidade Vila São Miguel

Associação de Pescadores da Ilha do Maruim.

As sessões de cine-debate fizeram parte do projeto "Territórios Tradicionais Pesqueiros: Conexões em Rede pelas Águas" e contou com o apoio da Purpose.

Caranguejo Uçá é Arte & Solidariedade!

30 julho 2018

II Mutirão Feminista de Autocuidado




"Um lugar de exercício de direito da mulher, por meio do qual é possível fortalecer sua autoestima, contribuir para que ela se coloque  no centro de sua própria vida e que busca motivar uma melhor condição de saúde para as mulheres", assim define Mayza Dias (pedagoga, terapêutica ginecológica e instrutora de autoproteção) sobre auto-cuidado feminista. O mutirão realizado através de uma parceria entre o Coletivo Flor do Mangue e a Ciranda de Mulheres aconteceu no dia 07 de Julho na sede da Ação Comunitária Caranguejo Uçá, na Ilha de Deus e contou com: escovação e cortes de cabelo, vaporização e cura do útero, reiki, massagem, thetahealing e um almoço coletivo. 




 "A solidariedade, reciprocidade e cuidado entre nós é arma que fragiliza e enfraquece o que nos aprisiona!"


Na opinião de Mayza, os maiores desafios de facilitar tais mutirões é lidar com a realidade de que as mulheres são destinadas ao papel social de cuidadoras, no qual não costumam se perceber enquanto merecedoras de cuidado. "Isso faz com que precisemos quebrar e subverter padrões socioeconômicos cruéis e injustos para com elas", enfatiza a terapeuta.



"O autocuidado é um ato político!"

O trabalho produtivo e reprodutivo diário, delegados a nós, mulheres, desencadeiam processos sistêmicos de adoecimento físico e mental concreto. Pensar o lugar da mulher negra e das companheiras da Ilha de Deus, pescadoras, esse quadro se agrava ainda mais, quando o trabalho na produção da pesca é invisibilizado, os direitos não reconhecidos, quando a saúde se encontra o tempo inteiro ameaçada por falta de prioridade dentro do sistema de saúde, que não reconhece a mulher pescadora com especificidades no momento do atendimento médico, além do cansaço e exaustão das tarefas não divididas com o companheiro e demais violências. Mas, apesar das diversas formas de opressões sofridas, encontramos uma forma de nos reinventar a todo tempo e continuar na luta e resistência cotidiana. A solidariedade, reciprocidade e cuidado entre nós é arma que fragiliza e enfraquece o que nos aprisiona.


Para Belle Souza, que é cabeleireira intuitiva, "cortar cabelo parece algo muito simples num primeiro olhar, mas não existe pessoa que não deseje se sentir bem por dentro e por fora. E o cabelo traz uma carga muito grande de emoção e depósito de expectativas em relação a beleza. Desde que comecei meu trabalho com cortes intuitivos eu consigo ir além do corte e trazer um cabelo que condiz verdadeiramente com o que está dentro e fugindo de padrões pré-estabelecidos". Esse trabalho na Ilha foi incrível. Porque dentro de realidades mais privilegiadas, as mulheres estão assumindo seus cabelos crespos, valorizando sua ancestralidade e nas comunidades esse processo ainda é lento. Mas, pude ver e trabalhar com muitas mulheres em transição e amando seus cachos. Principalmente meninas, tão bombardeadas com "padrões de beleza brancos", afirma Belle.



Reconhecer nossa força e se fortalecer com outras mulheres, nos dá folego para seguir. A prática do autocuidado traz essa possibilidade, pararmos, olharmos para nós e nos permitir ser cuidada e retribuir o cuidado. Audre Lorde disse: “cuidar de mim mesmo não é auto indulgência, é uma auto-preservação e é um ato político”. Para seguirmos e nos mantermos vivas é necessário nos cuidar e é nisso que a Ciranda de Mulheres acredita e seguirá na caminhada da cura e fortalecimento de todas as companheiras!
                                         



Ciranda de Mulheres é Resistência!
Caranguejo Uçá é Arte e Solidariedade!





25 julho 2018

Territórios Pesqueiros: conexão em rede pelas águas




Recife = Um substrato natural consolidado submerso ou a flor d'água. Recifes ou arrecifes são formações rochosas, podendo ser de arenito, de corais ou coberto por algas calcárias. Os recifes são ecossistemas de alta biodiversidade, característicos de águas costeiras nos mares tropicais. Em outras palavras, recife é uma morada de peixe e onde tem peixe, tem pesca! Assim é a cidade de Recife, um território pesqueiro. A capital estadual mais antiga do Brasil (481 anos), surgiu em 1537 na área portuária da Capitania de Pernambuco. Situada numa planície aluvial, abraçada por rios e regida pelas marés e pelas chuvas, também é conhecida no cenário artístico como MangueTown, devido aos manguezais de grande fertilidade orgânica e cultural. Por essas características naturais e sociais, o Recife é uma cidade das águas e possui uma identidade cultural pesqueira.

Porém, devido à uma política econômica desenvolvimentista que prioriza os interesses privados em detrimentos dos direitos coletivos, os territórios pesqueiros encontram-se descaracterizados. Alguns fatores como: verticalização da cidade, especulação imobiliária, uso e ocupação do solo de forma desordenada, poluição ambiental, descaso público com as águas, um sistema de esgotamento sanitário deficiente ou inexistente, além da carência de políticas públicas de educação e saúde contextualizadas colocam as Comunidades Tradicionais Pesqueiras em um cenário degradante, onde são sistematicamente invisibilizadas. Esse modelo de política segregadora e excludente não leva em conta a identidade cultural destas comunidades, logo não percebe o potencial das águas, para a mobilidade urbana, economia, gastronomia local e valoração ambiental. Para reverter esse cenário é importante criar mecanismos de participação popular, onde diferentes grupos sociais possam estar presentes para opinar sobre tomadas de decisão que definem o rumo da cidade, sobretudo no corrente ano, quando está prevista a revisão do plano diretor da cidade. 


Recife é uma morada de peixe e onde tem peixe, tem pesca!

Diante disso, a Ação Comunitária Caranguejo Uçá, vem realizando Cine-Debates nas Comunidades Tradicionais Pesqueiras, exibindo o vídeo "Encontro de Pescadores e Pescadoras do Recife". O vídeo é um registro documental resultante do evento realizado em Setembro de 2017 e as sessões fazem parte do projeto "Territórios Pesqueiros: conexão em rede pelas águas" que tem apoio da Purpose e serão exibidas em 12 comunidades pesqueiras entre Julho e Agosto de 2018. 


Anfi-teatro do Caranguejo Uçá (Ilha de Deus).


Para os pescadores da Comunidade do Bode, fatores como poluição e novos empreendimentos podem comprometer a continuidade das atividades pesqueiras na região. "A situação não está muito boa. Tem poluição, tem esses aterros, tem essa Via Mangue (obra viária) que passou aí e prejudicou os pescadores, que não tem mais acesso pra passar com as baiteiras, se forem grandes. Precisamos de ajuda na comunidade que está nessa situação, se continuar desse jeito a pesca vai parar, porque não vai ter condições de navegar, principalmente aqui nesse braço de rio", ressalta Joel dos Santos.  

Os impactos ambientais são apontados como motivadores do desaparecimento de algumas espécies, antes abundantes para a pesca realizada pela comunidade, como destaca o pescador Antônio Márcio: "A gente pegava muito siri, hoje em dia, não se vê mais. Não só sumiu o siri, mas o peixe tá muito escasso, a unha-de-velho que se pegava muito, hoje em dia a gente também não vê. É muita sujeira, muito lixo, muita poluição, por causa disso vem afetando muito a área pesqueira".


Joel dos Santos, pescador do Bode

Antônio Márcio, pescador do Bode

A sessão de cine-debate no Bode, também abre possibilidades para vários questionamentos, no que se referem ao tipo de moradia das Comunidades Tradicionais Pesqueiras e os meios de mobilidade, para quem vive em uma zona urbana como Recife. Segundo Stilo Santos (grafiteiro, articulador e educador social): "Não tem como pensar em clima, cidade, mobilidade etc sem as águas. Como é que a gente consegue chegar na Ilha de Deus em 8 minutos de barco, mas tem que pegar um ônibus, um metrô e outro ônibus e ainda andar um bocado na Vila da Imbiribeira, para chegar lá?"  

De acordo com Stilo, "A gestão pública precisa dialogar com a gente que tá na ponta, com os pescadores, ambulantes e outros setoriais pra entender quais são as dinâmicas. Pensar numa ótica nova, por exemplo: fluvial. A gente foi e voltou no carnaval desse ano, nos 4 dias de barco e tava o maior congestionamento nas avenidas pra pegar transporte coletivo, Uber, táxi e a gente tava de barco, com muita rapidez e segurança também. Se trocar ideia com as comunidades pesqueiras, a cidade vai conseguir contribuir numa lógica de habitação social, onde as pessoas possam morar. A gente tá aqui há muito tempo e nossa discussão é urbanizar isso da forma que a gente quer viver, porque a cidade é urbana, mas é pesqueira e é mangue".


Stilo Santos, grafiteiro, articulador e educador social (Coletivo Pão e Tinta/Livroteca Brincante do Pina)

O grafiteiro Stilo também destaca um fato curioso, o Bode como a primeira Comunidade Tradicional Pesqueira de Pernambuco, também é uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social), além disso, está localizada no bairro do Pina que possui o m² mais caro de Recife. A alta especulação imobiliária no bairro do Pina que atrai empreendimentos empresariais e residenciais se contrapõe à realidade dos profissionais da pesca. "Nossa habitação é crítica, nós precisamos de uma moradia digna, que não temos. Nós moramos em palafitas há muito tempo", afirma o pescador Joel, que também destacou a importância do cine-debate, por reunir pescadores e pescadoras e fortalecer outras organizações que trabalham em prol das comunidades pesqueiras. Outras sessões de Cine-Debate acontecerão nas comunidades: Vila São Miguel, Vila Tamandaré, Coelhos, Coque, Caranguejo-Tabaiares, Brasília Teimosa, Ponte do Limoeiro, Espaço Ciência e Ilha do Maruim (Olinda).



Porto do Bode



"A gente tá aqui há muito tempo e nossa discussão é urbanizar isso da forma que a gente quer viver, porque a cidade é urbana, mas é pesqueira e é mangue."


Porto do Bode


Caranguejo Uçá é Arte e Solidariedade!

18 junho 2018

Curso de Formação de Educadores e Educadoras Populares - Escola de Formação Quilombo dos Palmares




Em mais uma etapa do Curso de Formação de Educadores e Educadoras Populares, promovido pela Escola de Formação Quilombo dos Palmares (EQUIP), a vivência dessa vez aconteceu na Comunidade Tradicional Pesqueira Ilha de Deus, através do Teça no Mangue.

A recepção aconteceu com um café da manhã coletivo, e em seguida assistimos uma das produções audiovisuais do nosso núcleo de comunicação. Na sequência, realizamos uma dinâmica de apresentação e integração "Engrenagem", que nos permitiu refletir que, tanto na educação popular, quanto na militância social é importante que percebamos e conheçamos os sons e movimentos de cada parte integrante. Dessa forma, a engrenagem como um todo pode funcionar e a transformação acontecer.



Munidos de instrumentos percussivos fizemos uma caminhada lúdica de reconhecimento e intervenção no território, onde simbolicamente instalamos uma placa educativa, informando sobre a importância de conservação do manguezal. A caminhada seguiu recheada de músicas e cantigas populares que fazem parte das manifestações culturais de povos e comunidades tradicionais. Ao longo da manhã, apresentamos ao grupo outros equipamentos sociais comunitários, como o Banco Poupança Comunitária e o Centro Educacional Popular Saber Viver. No entanto, alguns equipamentos que deveriam ser entregues após o processo de urbanização da Ilha de Deus, iniciado em 2007 e orçado na época em 80 milhões de reais, não foram finalizados. Como é o caso da Creche Comunitária, que existia há mais de 25 anos, que foi demolida em 2009 e ainda não foi reconstruída pela gestão pública, assim como a Unidade de Beneficiamento de Pescado.




Já no período da tarde, após o almoço coletivo, através da dinâmica Linha do Tempo, processo facilitado pelo companheiro Cajá (EQUIP) fizemos um mergulho de reflexão na história do Caranguejo Uçá e na história da Ilha de Deus. Essa dinâmica foi construída à partir de relatos dos integrantes e moradores da comunidade, arquivos jornalísticas e materiais institucionais. O resultado foi um "Rio do Tempo", que remonta aos tempos de fartura do pescado e sentimentos de coletivismo, presentes no surgimento da comunidade. Os primeiros moradores e moradoras, assim como pessoas externas à Ilha de Deus, que contribuíram para a formação educacional, cultural e política de pescadores, pescadoras, jovens e crianças. Em um breve olhar, constatamos que os rios que banham a cidade do Recife foram sendo gradativamente mal tratados e tornando-se poluídos, descaracterizando os territórios tradicionais pesqueiros. O descaso de sucessivas gestões com as águas, os manguezais e com as comunidades tradicionais pesqueiras, nos fazem questionar: Há racismo ambiental em Recife?

O Teça no Mangue foi finalizado com um bate-papo com Educadores e Educadoras Populares na Rádio Boca da Ilha (a rádio que não tem papas na língua), onde após uma troca de saberes, os/as integrantes verbalizaram suas impressões sobre o território e a comunidade.


"Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes." (Paulo Freire)




Caranguejo Uçá é Arte e Solidariedade!