30 julho 2018

II Mutirão Feminista de Autocuidado




"Um lugar de exercício de direito da mulher, por meio do qual é possível fortalecer sua autoestima, contribuir para que ela se coloque  no centro de sua própria vida e que busca motivar uma melhor condição de saúde para as mulheres", assim define Mayza Dias (pedagoga, terapêutica ginecológica e instrutora de autoproteção) sobre auto-cuidado feminista. O mutirão realizado através de uma parceria entre o Coletivo Flor do Mangue e a Ciranda de Mulheres aconteceu no dia 07 de Julho na sede da Ação Comunitária Caranguejo Uçá, na Ilha de Deus e contou com: escovação e cortes de cabelo, vaporização e cura do útero, reiki, massagem, thetahealing e um almoço coletivo. 




 "A solidariedade, reciprocidade e cuidado entre nós é arma que fragiliza e enfraquece o que nos aprisiona!"


Na opinião de Mayza, os maiores desafios de facilitar tais mutirões é lidar com a realidade de que as mulheres são destinadas ao papel social de cuidadoras, no qual não costumam se perceber enquanto merecedoras de cuidado. "Isso faz com que precisemos quebrar e subverter padrões socioeconômicos cruéis e injustos para com elas", enfatiza a terapeuta.



"O autocuidado é um ato político!"

O trabalho produtivo e reprodutivo diário, delegados a nós, mulheres, desencadeiam processos sistêmicos de adoecimento físico e mental concreto. Pensar o lugar da mulher negra e das companheiras da Ilha de Deus, pescadoras, esse quadro se agrava ainda mais, quando o trabalho na produção da pesca é invisibilizado, os direitos não reconhecidos, quando a saúde se encontra o tempo inteiro ameaçada por falta de prioridade dentro do sistema de saúde, que não reconhece a mulher pescadora com especificidades no momento do atendimento médico, além do cansaço e exaustão das tarefas não divididas com o companheiro e demais violências. Mas, apesar das diversas formas de opressões sofridas, encontramos uma forma de nos reinventar a todo tempo e continuar na luta e resistência cotidiana. A solidariedade, reciprocidade e cuidado entre nós é arma que fragiliza e enfraquece o que nos aprisiona.


Para Belle Souza, que é cabeleireira intuitiva, "cortar cabelo parece algo muito simples num primeiro olhar, mas não existe pessoa que não deseje se sentir bem por dentro e por fora. E o cabelo traz uma carga muito grande de emoção e depósito de expectativas em relação a beleza. Desde que comecei meu trabalho com cortes intuitivos eu consigo ir além do corte e trazer um cabelo que condiz verdadeiramente com o que está dentro e fugindo de padrões pré-estabelecidos". Esse trabalho na Ilha foi incrível. Porque dentro de realidades mais privilegiadas, as mulheres estão assumindo seus cabelos crespos, valorizando sua ancestralidade e nas comunidades esse processo ainda é lento. Mas, pude ver e trabalhar com muitas mulheres em transição e amando seus cachos. Principalmente meninas, tão bombardeadas com "padrões de beleza brancos", afirma Belle.



Reconhecer nossa força e se fortalecer com outras mulheres, nos dá folego para seguir. A prática do autocuidado traz essa possibilidade, pararmos, olharmos para nós e nos permitir ser cuidada e retribuir o cuidado. Audre Lorde disse: “cuidar de mim mesmo não é auto indulgência, é uma auto-preservação e é um ato político”. Para seguirmos e nos mantermos vivas é necessário nos cuidar e é nisso que a Ciranda de Mulheres acredita e seguirá na caminhada da cura e fortalecimento de todas as companheiras!
                                         



Ciranda de Mulheres é Resistência!
Caranguejo Uçá é Arte e Solidariedade!





25 julho 2018

Territórios Pesqueiros: conexão em rede pelas águas




Recife = Um substrato natural consolidado submerso ou a flor d'água. Recifes ou arrecifes são formações rochosas, podendo ser de arenito, de corais ou coberto por algas calcárias. Os recifes são ecossistemas de alta biodiversidade, característicos de águas costeiras nos mares tropicais. Em outras palavras, recife é uma morada de peixe e onde tem peixe, tem pesca! Assim é a cidade de Recife, um território pesqueiro. A capital estadual mais antiga do Brasil (481 anos), surgiu em 1537 na área portuária da Capitania de Pernambuco. Situada numa planície aluvial, abraçada por rios e regida pelas marés e pelas chuvas, também é conhecida no cenário artístico como MangueTown, devido aos manguezais de grande fertilidade orgânica e cultural. Por essas características naturais e sociais, o Recife é uma cidade das águas e possui uma identidade cultural pesqueira.

Porém, devido à uma política econômica desenvolvimentista que prioriza os interesses privados em detrimentos dos direitos coletivos, os territórios pesqueiros encontram-se descaracterizados. Alguns fatores como: verticalização da cidade, especulação imobiliária, uso e ocupação do solo de forma desordenada, poluição ambiental, descaso público com as águas, um sistema de esgotamento sanitário deficiente ou inexistente, além da carência de políticas públicas de educação e saúde contextualizadas colocam as Comunidades Tradicionais Pesqueiras em um cenário degradante, onde são sistematicamente invisibilizadas. Esse modelo de política segregadora e excludente não leva em conta a identidade cultural destas comunidades, logo não percebe o potencial das águas, para a mobilidade urbana, economia, gastronomia local e valoração ambiental. Para reverter esse cenário é importante criar mecanismos de participação popular, onde diferentes grupos sociais possam estar presentes para opinar sobre tomadas de decisão que definem o rumo da cidade, sobretudo no corrente ano, quando está prevista a revisão do plano diretor da cidade. 


Recife é uma morada de peixe e onde tem peixe, tem pesca!

Diante disso, a Ação Comunitária Caranguejo Uçá, vem realizando Cine-Debates nas Comunidades Tradicionais Pesqueiras, exibindo o vídeo "Encontro de Pescadores e Pescadoras do Recife". O vídeo é um registro documental resultante do evento realizado em Setembro de 2017 e as sessões fazem parte do projeto "Territórios Pesqueiros: conexão em rede pelas águas" que tem apoio da Purpose e serão exibidas em 12 comunidades pesqueiras entre Julho e Agosto de 2018. 


Anfi-teatro do Caranguejo Uçá (Ilha de Deus).


Para os pescadores da Comunidade do Bode, fatores como poluição e novos empreendimentos podem comprometer a continuidade das atividades pesqueiras na região. "A situação não está muito boa. Tem poluição, tem esses aterros, tem essa Via Mangue (obra viária) que passou aí e prejudicou os pescadores, que não tem mais acesso pra passar com as baiteiras, se forem grandes. Precisamos de ajuda na comunidade que está nessa situação, se continuar desse jeito a pesca vai parar, porque não vai ter condições de navegar, principalmente aqui nesse braço de rio", ressalta Joel dos Santos.  

Os impactos ambientais são apontados como motivadores do desaparecimento de algumas espécies, antes abundantes para a pesca realizada pela comunidade, como destaca o pescador Antônio Márcio: "A gente pegava muito siri, hoje em dia, não se vê mais. Não só sumiu o siri, mas o peixe tá muito escasso, a unha-de-velho que se pegava muito, hoje em dia a gente também não vê. É muita sujeira, muito lixo, muita poluição, por causa disso vem afetando muito a área pesqueira".


Joel dos Santos, pescador do Bode

Antônio Márcio, pescador do Bode

A sessão de cine-debate no Bode, também abre possibilidades para vários questionamentos, no que se referem ao tipo de moradia das Comunidades Tradicionais Pesqueiras e os meios de mobilidade, para quem vive em uma zona urbana como Recife. Segundo Stilo Santos (grafiteiro, articulador e educador social): "Não tem como pensar em clima, cidade, mobilidade etc sem as águas. Como é que a gente consegue chegar na Ilha de Deus em 8 minutos de barco, mas tem que pegar um ônibus, um metrô e outro ônibus e ainda andar um bocado na Vila da Imbiribeira, para chegar lá?"  

De acordo com Stilo, "A gestão pública precisa dialogar com a gente que tá na ponta, com os pescadores, ambulantes e outros setoriais pra entender quais são as dinâmicas. Pensar numa ótica nova, por exemplo: fluvial. A gente foi e voltou no carnaval desse ano, nos 4 dias de barco e tava o maior congestionamento nas avenidas pra pegar transporte coletivo, Uber, táxi e a gente tava de barco, com muita rapidez e segurança também. Se trocar ideia com as comunidades pesqueiras, a cidade vai conseguir contribuir numa lógica de habitação social, onde as pessoas possam morar. A gente tá aqui há muito tempo e nossa discussão é urbanizar isso da forma que a gente quer viver, porque a cidade é urbana, mas é pesqueira e é mangue".


Stilo Santos, grafiteiro, articulador e educador social (Coletivo Pão e Tinta/Livroteca Brincante do Pina)

O grafiteiro Stilo também destaca um fato curioso, o Bode como a primeira Comunidade Tradicional Pesqueira de Pernambuco, também é uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social), além disso, está localizada no bairro do Pina que possui o m² mais caro de Recife. A alta especulação imobiliária no bairro do Pina que atrai empreendimentos empresariais e residenciais se contrapõe à realidade dos profissionais da pesca. "Nossa habitação é crítica, nós precisamos de uma moradia digna, que não temos. Nós moramos em palafitas há muito tempo", afirma o pescador Joel, que também destacou a importância do cine-debate, por reunir pescadores e pescadoras e fortalecer outras organizações que trabalham em prol das comunidades pesqueiras. Outras sessões de Cine-Debate acontecerão nas comunidades: Vila São Miguel, Vila Tamandaré, Coelhos, Coque, Caranguejo-Tabaiares, Brasília Teimosa, Ponte do Limoeiro, Espaço Ciência e Ilha do Maruim (Olinda).



Porto do Bode



"A gente tá aqui há muito tempo e nossa discussão é urbanizar isso da forma que a gente quer viver, porque a cidade é urbana, mas é pesqueira e é mangue."


Porto do Bode


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18 junho 2018

Curso de Formação de Educadores e Educadoras Populares - Escola de Formação Quilombo dos Palmares




Em mais uma etapa do Curso de Formação de Educadores e Educadoras Populares, promovido pela Escola de Formação Quilombo dos Palmares (EQUIP), a vivência dessa vez aconteceu na Comunidade Tradicional Pesqueira Ilha de Deus, através do Teça no Mangue.

A recepção aconteceu com um café da manhã coletivo, e em seguida assistimos uma das produções audiovisuais do nosso núcleo de comunicação. Na sequência, realizamos uma dinâmica de apresentação e integração "Engrenagem", que nos permitiu refletir que, tanto na educação popular, quanto na militância social é importante que percebamos e conheçamos os sons e movimentos de cada parte integrante. Dessa forma, a engrenagem como um todo pode funcionar e a transformação acontecer.



Munidos de instrumentos percussivos fizemos uma caminhada lúdica de reconhecimento e intervenção no território, onde simbolicamente instalamos uma placa educativa, informando sobre a importância de conservação do manguezal. A caminhada seguiu recheada de músicas e cantigas populares que fazem parte das manifestações culturais de povos e comunidades tradicionais. Ao longo da manhã, apresentamos ao grupo outros equipamentos sociais comunitários, como o Banco Poupança Comunitária e o Centro Educacional Popular Saber Viver. No entanto, alguns equipamentos que deveriam ser entregues após o processo de urbanização da Ilha de Deus, iniciado em 2007 e orçado na época em 80 milhões de reais, não foram finalizados. Como é o caso da Creche Comunitária, que existia há mais de 25 anos, que foi demolida em 2009 e ainda não foi reconstruída pela gestão pública, assim como a Unidade de Beneficiamento de Pescado.




Já no período da tarde, após o almoço coletivo, através da dinâmica Linha do Tempo, processo facilitado pelo companheiro Cajá (EQUIP) fizemos um mergulho de reflexão na história do Caranguejo Uçá e na história da Ilha de Deus. Essa dinâmica foi construída à partir de relatos dos integrantes e moradores da comunidade, arquivos jornalísticas e materiais institucionais. O resultado foi um "Rio do Tempo", que remonta aos tempos de fartura do pescado e sentimentos de coletivismo, presentes no surgimento da comunidade. Os primeiros moradores e moradoras, assim como pessoas externas à Ilha de Deus, que contribuíram para a formação educacional, cultural e política de pescadores, pescadoras, jovens e crianças. Em um breve olhar, constatamos que os rios que banham a cidade do Recife foram sendo gradativamente mal tratados e tornando-se poluídos, descaracterizando os territórios tradicionais pesqueiros. O descaso de sucessivas gestões com as águas, os manguezais e com as comunidades tradicionais pesqueiras, nos fazem questionar: Há racismo ambiental em Recife?

O Teça no Mangue foi finalizado com um bate-papo com Educadores e Educadoras Populares na Rádio Boca da Ilha (a rádio que não tem papas na língua), onde após uma troca de saberes, os/as integrantes verbalizaram suas impressões sobre o território e a comunidade.


"Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes." (Paulo Freire)




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13 novembro 2017

Vivência Juventude & Agroecologia na Ilha de Deus






Jovens multiplicadores do campo e da cidade, além de representantes de organizações sociais que desenvolvem ações comunitárias participaram de  uma Vivência na Comunidade Tradicional Pesqueira Ilha de Deus, como uma das atividades do V Encontro Juventudes & Agroecologia. 

Atividades dinâmicas, batuques, corte de cabelo, bate-papo na Rádio Boca da Ilha e conversa com pescadores e pescadoras, assim foi dia onde, o intercâmbio entre saberes e práticas de diferentes realidades nos permitiu repensar nossa forma de ser, estar e agir no mundo, à partir da Juventude. 




O V Encontro Juventudes & Agroecologia foi realizado pelo Centro Sabiá e teve o apoio da FASE, Diaconia, Casa da Mulher do Nordeste, Pastoral da Juventude Rural, Levante Popular da Juventude, Comissão de Jovens Multiplicadores da Agroecologia, GT de Juventudes da Articulação Nacional de Agroecologia e Cooperação Terra dos Homens (Suíça).








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Ciranda de Mulheres é Resistência!





20 outubro 2017

CARTA DO ENCONTRO DOS PESCADORES E PESCADORAS DE RECIFE “Pescadoras e Pescadores na Luta em Defesa de Direitos e Territórios Pesqueiros Tradicionais”





É com a força das lutas cotidianas de mulheres e homens da pesca artesanal que nós, das Comunidades Tradicionais Pesqueiras da cidade de Recife (Brasília Teimosa, Bode, Ilha de Deus, Coelhos, Coque, Vila São Miguel, Caranguejo Tabaiares, Vila da Imbiribeira, Vila Tamandaré, Ponte do Limoeiro, Espaço Ciência) e Ilha do Maruim em Olinda, com o apoio das organizações da sociedade civil, instituições de ensino e pesquisa, apresentamos, através desta carta, o nosso Grito de Resistência por ocasião do ENCONTRO DOS PESCADORES E PESCADORAS DE RECIFE, que teve como tema “Pesca Artesanal no Recife: Desafios e Perspectivas na Consolidação dos direitos e Territórios Pesqueiros Tradicionais” ecuja realização deu-se nos dias 18 e 19 de setembro de 2017, às margens do Rio Capibaribe, no Memorial de Medicina de Pernambuco, Recife, Brasil.
Cidade do Recife que surgiu de uma Vila de Pescadores, onde a maior parte de seus bairros constituiu-se como marca de uma vida ribeirinha, historicamente influenciada pelos rios, mangues, estuários, córregos e a própria pesca artesanal. Sem dúvida, Recife necessita reencontrar-se consigo ao valorizar seu mundo das águas e aquelas e aqueles que sempre fizeram desse recurso natural, principal meio de existência material e simbólico de suas vidas. Por isso, o Encontro foi também um Grito Histórico.
Nele [no Encontro], discutimos e constatamos que as nossas Comunidades Tradicionais Pesqueiras Urbanas vivenciam cotidianamente sistemáticas pressões e violências provocadas pelo desenvolvimento de um projeto de cidade cada dia mais excludente em termos de classe, juventude, gênero e raça/etnias; que nega a existência e o pleno desenvolvimento das Comunidades Tradicionais Pesqueiras. Tudo isso se liga a um projeto de cidade ambientalmente injusto, que encontra nos rios uma comprovação desse fenômeno, a partir das formas insustentáveis de usos de suas águas (esgotamento doméstico; depósito e descarte de resíduos domésticos, hospitalares e industriais; desmatamento dos mangues; assoreamento dos rios; especulação imobiliária e urbanização negadora da reprodução do modo de vida ribeirinho/pesqueiro).
            Intensificando esse aspecto, a ausência de dados sobre a produção pesqueira e o não reconhecimento dessas populações como ocupantes históricas dessas áreas urbanas, produzem ainda mais bloqueios para a continuidade desse modo de vida tradicional em termos de produção econômica e de identidade sociocultural.
Apesar disso, como aspectos da resistência das Comunidades Tradicionais Pesqueiras, que trabalham há décadas em rios e mangues maltratados por este modelo de cidade, dados preliminares demonstram que mais de 1.400 famílias vivem diretamente da produção de pescados, retirada dessas águas. Comunidades como Ilha de Deus, juntamente com Vila da Imbiribeira e Bode, produzem mensalmente mais de 30 toneladas de polpa de sururu, além de outras espécies de peixes, moluscos e crustáceos, o que reflete a importância da pesca artesanal para a soberania e segurança alimentar e também econômica dessas comunidades – assim como para uma significativa parcela da população da cidade. Recife possui hoje, a maior frota de embarcações lagosteiras de Pernambuco, com 40 embarcações licenciadas, envolvendo diretamente mais de 200 pescadores.
Outro fato relevante e que, de certa maneira, anuncia a tradição da pesca na cidade de Recife, é a capital pernambucana ter a Colônia de Pesca mais antiga do estado, cuja criação ocorreu no início da década de 1920.
            Diante dessa realidade, que nos mostra a concretude da atividade pesqueira artesanal na cidade de Recife como fonte de reprodução da vida de mais de mil famílias, chamamos a atenção para a existência dos Territórios Pesqueiros Urbanos. Os Territórios Pesqueiros são constituídos por elementos concretos e subjetivos que permeiam a referida atividade – como a água dos rios, mangues, mares e marés; a terra que serve para moradia, vivências e trabalho; além das relações históricas, identitárias e afetivas que as comunidades mantêm com esses espaços.
A violência com as comunidades pesqueiras artesanais se dá principalmente em dois âmbitos. Um deles é o âmbito político, pela ausência de políticas públicas direcionadas às comunidades e à atividade, ou pela efetivação de políticas que resultam em consequências negativas, como privatização de áreas de uso comum e negação do acesso às áreas de navegabilidade. O outro âmbito, que se relaciona com o anterior, é o territorial, onde a violência se dá tanto pela poluição e degradação da natureza nos espaços de pesca (e na cidade de forma geral), refletindo-se em impactos sobre a reprodução e diversidade de espécies pesqueiras; como também pelo avanço do capital privado e/ou do Estado nesses territórios, através de empreendimentos e apropriações diversas, que disputam um espaço secularmente ocupado e apropriado por essas comunidades por meio do trabalho pesqueiro.
Os Territórios Pesqueiros Urbanos de Recife são, nesse sentido, invisibilizados, criminalizados e ameaçados, o que contribui dentre outras coisas, para uma crescente precarização da atividade e instabilidade econômica para as famílias que vivem da referida atividade.
Soma-se ao descaso dos poderes públicos municipais e estadual, o período de grandes retrocessos políticos, econômicos, sociais e culturais que vive o país hoje, com a negação de direitos constituídos. Direitos estes, conquistados com muitas lutas populares ao longo de todo século XX, sendo cristalizados na Constituição Federal de 1988. Tal conjuntura de perda de direitos tem, de forma indireta e direta, impactado (e continuará impactando) negativamente as Comunidades Tradicionais Pesqueiras de Recife.
Nesse sentido, as 12 comunidades presentes no Encontro, objetivam o reconhecimento da sua agenda histórica de reivindicações, seja contra o constante descaso das autoridades locais, estaduais e federal; seja em favor da implementação e conquista de direitos fundamentais dos trabalhadores e trabalhadoras da pesca artesanal (registros trabalhista e previdenciários); seja por um atendimento/assistência a saúde que contemple as particularidades dos homens e mulheres que vivem da pesca – em especial, à saúde das mulheres, susceptíveis a doenças ocupacionais por estarem muito tempo dentro da água e expostas às insalubridades do ambiente de trabalho degradado. Além disso, cabe ressaltar as situações de vulnerabilidade às quais essas mulheres estão expostas, como assaltos, estupros e violências. Ademais, esses territórios por se caracterizarem pela população negra e em situação de pobreza, vivenciam ainda, diariamente, o extermínio e encarceramento de jovens negros e negras.
Por fim, numa cidade envolvida pelas águas, as questões apresentadas que afetam as comunidades pesqueiras, também afetam toda a população recifense. Reafirmamos, portanto, nossos compromissos de luta em defesa e reconhecimento dos Territórios Pesqueiros e garantia dos direitos das comunidades tradicionais.

Recife, 19 de setembro de 2017.
1.      
1.     Alexsandro de Souza Gouveia – Ilha de Deus
2.     Ana Mirtes da Silva Ferreira – Ilha de Deus
3.     Ana Paula F. dos Reis – Ilha de Deus
4.     Aniérica Almeida – Centro Sabiá
5.     Antonio Marcio Moreira de Carvalho – Bode/Pina
6.     Augusto da Silva Guimarães – Colônia dos Pescadores  Z 01 (Brasília Teimosa)
7.     Beatriz Mesquita - Pesquisadora
8.     Carmelita Júlia da Silva – Ilha de Deus
9.     Carlos André Justino da Silva – Ilha de Deus
10. Carlos Alberto de Oliveira – Espaço Ciência
11. Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá
12. Conselho Pastoral dos Pescadores  - Regional Nordeste 02 (CPP/NE)
13. Clênio da Silva Alves – Vila Tamandaré
14. Cristina Nascimento de Lima – Vila da Imbiribeira
15. Danilo Firmino dos Santos – Pode/Pina
16. Debora Maria de Santana – Ilha do Maruim/Olinda
17. Dijane Maria dos Santos – Vila Tamandaré
18. Djailson Felix da Silva – Vila Tamandaré
19. Dr. Beatriz Mesquita – Pesquisadora
20. Dr. Cristiano W.N. Ramalho – Pesquisador PPGS/UFPE
21. Dr. Suana Medeiros Silva – Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Espaços Agrários e Campesinos – LEPEG/UFPE.
22. Edileuza Silva do Nascimento – Brasília Teimosa
23. Edline Silva Nascimento – Brasília Teimosa
24. Edna Francisca Maciel – Vila da Imbiribeira
25. Edson Cruz – Ação Comunitária Caranguejo-Uça/ACCU
26. Edeilton Ribamar - Coque
27. Eliane Romão de Andrade – Ilha do Maruim/Olinda
28. Elivânia Maria Paiva Rocha – Poupança Comunitária (Vila Tamandaré)
29. Eloisa Amaral L. de Medeiro – ACCU e Ciranda de Mulheres
30. Erivaldo Antonio da Costa – Vila Tamandaré
31. Fabio Pereira de Lima – Vila da Imbiribeira
32. Federação dos Órgãos Assistências, Social e Educação - FASE /Recife
33. Francisca das chagas Rodrigues – Brasilia Teimosa
34. Francineide Patricia Alves – Ilha de Deus
35. Gabriel Felix da Silva – Vila Tamandaré
36. Girlande Maria – Brasília Teimosa
37. Humberto Gonçalves – Vila Tamandaré
38. Iracema Vieira dos Santos – Ilha do Maruim
39. Isabela Maria Santos de Andrade – Bode/Pina
40. Iranildo Crispim Gomes – Espaço Ciência
41. Ivanildo Siqueira da Rocha – Ilha de Deus
42. Jardieli Maria de Souza – Ilha de Deus
43. José de Assis – Brasília Teimosa
44. José Faustino - Coque
45. Jaciara Galdino M. de Moura – Vila da Imbiribeira
46. Jailson F. da Silva – Vila Tamandaré
47. Jonas do Nascimento – Bode/Pina
48. Joana Rodrigues Mousinho -  MPP/ANP
49. Joana Santos Pereira – FASE
50. José Carlos de Sena Machado
51. José Elizeu – Caranguejo Tabaiares
52. José Fernando Damasceno – Vila Tamandaré
53. José Ignácio Vega Fernandez – Laboratorio de Estudos Rurais do Nordeste – LAE-RURAL/UFPE
54. José Lopes Souza – Ilha de Deus
55. Jose Jorge Marques da Silva – Ilha do Maruim
56. José Rufino de Paula Filho – Coque
57. Juvenita Albuquerque  - Pesquisadora
58. Juliana dos Santos Tavares - Pina
59. Laurineide Maria V. C. de Santana – CPP/NE
60. Leandro Luiz Lima - Ação Comunitária Caranguejo-uçá/CCU
61. Lourenço T. do Nascimento – Espaço Ciência
62. Luciano V. da Cruz – Vila São Miguel
63. Lucimar Helena dos Santos – Brasília Teimosa
64. Luiz Carlos Euclides da Silva – Ilha de Deus
65. Maria da Paixão – Vila da Imbiribieira
66. Maria Elania da Silva – Vila Tamandaré
67. Maria Sueli do Nascimento – Ilha do Maruim/Olinda
68. Mario Ramos da Silva – Bode/Pina
69. Moises Florêncio da Silva –
70. Moises Lucio dos Anjos – Vila São Miguel
71. Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil – Regional Pernambuco
72. Ornela Fortes de Melo – CPP/NE
73. Paulo Pessoa Lacerda – Espaço Ciência/Santo Amaro.
74. Paulo H. da Silva Neto – Vila Tamandaré
75. Pedro Henrique Silveira Santos – Pesquisador
76. Rodrigo Lima Guerra de Moraes – Ação Comunitária Caranguejo-uçá/CCU
77. Roberta Maria Fernandes – Ilha de Deus
78. Rosimere Nery – FASE/RECIFE
79. Rudrigo Rafael - FASE
80. Sandro Florencio da Silva
81. Sandro Lorenço de Santana - Bode
82. Severino Antonio dos Santos – CPP/NE
83. Simone Ferreira Teixeira – UPE
84. Sismara Silva Campos –  Pesquisadora
85. SOS CORPO – Instituto Feminista para Democracia
86. Tarcísio Quinamo – Pesquisador
87. Terezinha Filha – ACCU/Ciranda de Mulheres
88. Valdenice Herculano da Silva – Ilha de Deus
89. Vera Lucia Pereira do C. de Holanda – Ilha do Maruim/Olinda
90. Veronica Maria da Silva Gomes Alves – Ilha do Maruim/Olinda
91. Veronica Fox – Pesquisadora
92. Yasmim Alves – PSOL/Recife
93. Hamilton Tenório – Ação Comunitária Caranguejo-Uça/ACCU
94. Valdelice Herculano – Ilha de Deus
95. Wilson Melo da Silva – Vila São Miguel

11 outubro 2017

Documentário No Rio e no Mar é lançado em Pernambuco




Exibido na 20ª edição do projeto “De Frente para a Costa”, iniciativa da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no Recife, o documentário “No Rio e no Mar” resgata a luta dos pescadores e pescadoras artesanais da Ilha da Maré (BA), contra a poluição e danos à saúde causados pelos empreendimentos da Petrobrás e do Porto de Aratu, na região. A ilha fica localizada na Bahia de Todos os Santos e pertence ao município de Salvador. Em torno de 50 pesquisadores, estudantes e membros de organizações não governamentais prestigiaram o evento, realizado no último dia 06 de setembro, na Fundaj.


A mesa de debate foi composta pela líder do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP), Marizelha Lopes (Nega), que veio da Ilha da Maré especialmente para o lançamento do documentário produzido pela Anistia da Holanda; o pesquisador da Fundaj, Tarcício Quinamo; a educadora social do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), Laurineide Santana, e o professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia, Miguel Accioly.

Marizelha falou sobre as dificuldades enfrentadas pela Ilha da Maré, que sofre com os problemas ambientais e de saúde provocados pelas indústrias na região. “A pesca artesanal é pouco respeitada em nosso país. Fomos abandonados pelo poder público. Somos mais de 10 mil moradores, vivemos exclusivamente da pesca e do artesanato e infelizmente estamos sendo exterminados. Esse documentário fala um pouco da nossa situação. A gente tem uma diversidade muito grande e ainda somos uma ilha muito bonita, apesar dos empreendimentos”, relatou.
Foram feitas ainda denúncias sobre o modelo de desenvolvimento prejudicial à saúde e ao meio ambiente, que destrói e desagrega as comunidades tradicionais. “Essa poluição ameaça a vida e os saberes populares da nossa população. A gente tem consciência que está morrendo, mas a gente vai continuar denunciando. Os órgãos ambientais, lamentavelmente, fecham os olhos para a poluição ambiental, especialmente no Nordeste", denunciou Marizelha.




POLUENTES - O professor Accioly, por sua vez, explicou que as quase 10 mil pessoas que vivem na ilha são invisibilizadas pelo poder público.  Segundo o pesquisador, a própria prefeitura desconhece a comunidade e não disponibiliza educação e saúde que condigam com suas obrigações junto aos moradores do local. “Inclusive, as 11 comunidades distribuídas em torno da ilha são atendidas pela escola e pelo posto de saúde do município vizinho”, apontou.
Para Accioly, é inviável e incompreensível o investimento do Estado nesses empreendimentos na região. “Colocaram as indústrias todas lá e, por conta disso, também há uma grande concentração de poluentes, como metais, chumbo, mercúrio. Além disso, petroquímicos, amônia, fertilizantes, poeira de soja, de trigo e de siderúrgica. É uma gama de poluentes que vêm pela água e pelo ar prejudicando a vida e saúde dos moradores”, informou.

MODELO – Laurineide Santana, do CPP, disse ainda que o problema enfrentado pela Ilha da Maré não é um problema de uma comunidade, mas das comunidades e dos povos tradicionais no Brasil. “Esse trabalho que a Ilha está fazendo é abrir os olhos e os ouvidos para a gente lutar. A gente percebe que além do problema ambiental, é um problema social, é um problema econômico, é um problema da sociedade. Esse modelo de desenvolvimento imposto no Brasil é bom para quem? Ele traz morte, doença, diminuição da produção, destruição do ambiente. Então, esse modelo não serve mais”, disse.

Por sua vez, o pesquisador da Fundaj, Tarcício Quinamo, destacou que o modelo predatório e excludente adotado pelo Brasil penaliza as populações pobres, onde prevalecem as pessoas negas. “É uma realidade que está aí, pseudocolocada e distorcida pelos grandes meios de comunicação. Os pescadores artesanais, os índios são cuidadores dessas áreas, uma área que diz respeito a todos nós. Quando esses povos sofrem, a gente está pagando por isso. Isso é o que precisamos rever nesse modelo de desenvolvimento, temos que trazer para a discussão. É um compromisso nosso divulgar para que as pessoas reflitam sobre essa realidade”, alertou.




Matéria: Assessoria de Comunicação do Conselho Pastoral dos Pescadores